15 março 2017

"Capão Pecado": favela sem demagogia e a importância da literatura marginal


Muitos de vocês com certeza já ouviram falar do bairro Capão Redondo; localizada em São Paulo, a grande favela com tons cinzas habita uma população carente, mas que tem muito o que contar. O autor paulista Ferréz, com uma linguagem bastante coloquial, reúne algumas dessas histórias e nos presenteia com "Capão Pecado". Publicado pela primeira vez no ano 2000, o livro ambientado nessa famosa favela transmite ao leitor muito mais que apenas a violência constantemente noticiada pela mídia. 

Durante a leitura, não é possível identificar um protagonista específico para a obra. Indo além, diria ainda que a grande protagonista da trama é a favela. Recheado com histórias de um grande grupo de amigos, "Capão Pecado" passeia por vários temas importantes e corriqueiros na realidade local, como a traição, drogas, marginalização e até mesmo como a polícia age na periferia.

Uma das poucas coisas que me incomodaram durante a leitura foi a falta de apresentação - ou até mesmo aprofundamento - dos personagens. Talvez pelo fato do livro ter poucas páginas (aproximadamente 150 páginas de enredo) e ainda contar com um grande número de personagens, fez com que eu não tivesse grande identificação com nenhum deles. Mas claro, como de costume, alguns eu gostei mais que outros e por isso senti falta de conhecê-los melhor.

Apesar disso, o que mais me impressionou foi pelo fato do livro, mesmo sido escrito há quase duas décadas, ainda ser muito atual. Apoiado em um discurso bem realista do cotidiano periférico, Ferréz traz vários questionamentos que são comuns entre a população mais carente. Tudo isso sem parecer ser tendencioso, ele está apenas transpassando um sentimento de quem cresceu e amadureceu naquela realidade.


... pensou no que seria o céu... Haveria periferia lá? E Deus? Seria da mansão dos patrões ou viveria na senzala?... o céu que mostram é elitizado, o Deus onipotente e cruel que eles escondem matou milhões; tá na bíblia, tá lá, pensava Rael, mas apresentam Jesus como sendo um cara loiro... Rael chegou à conclusão mais óbvia:... aqui é o inferno de algum outro lugar e desde o quilombo a gente paga, nada mudou. (página 62)

Em suma, Capão Pecado é uma obra para aqueles que querem uma leitura rápida e prática, realista e emocionante, sincera, verdadeira. Uma leitura para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de acesso ao discurso acadêmico e procuram uma identificação na literatura. E, além disso, por mais impressionante que seja, o livro atende também a população com uma boa condição socioeconômica, mostrando - sem demagogia - como seus irmãos vivem do outro lado, lá no "fundo do mundo".


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