22 fevereiro 2017

Crítica | “A Jovem Rainha” e sua fascinante história


A Jovem Rainha, do diretor Mika Kaurismäki, é um filme biográfico que conta a história da rainha Cristina da Suécia, conhecida por seus modos nada convencionais, a monarca tornou-se rainha aos seis anos de idade, com a morte de seu pai, mas ocupou o trono oficialmente somente a partir dos dezoito anos de idade. Neste ínterim, ela foi criada por membros do parlamento que, por vislumbrarem nela a herdeira do trono, sempre a trataram como um príncipe, fazendo com que ela fosse treinada e ensinada como tal. Cristina tinha uma grande curiosidade intelectual, mantinha em sua corte poetas, artistas e filósofos, além disso era conhecida por seus maneirismos masculinos e especula-se que a monarca teria sido lésbica.

Pessoalmente, não gosto de avaliar filmes históricos por seu nível de fidelidade aos fatos, por isso não entrarei no mérito de se o filme é coerente com os acontecimentos ou não, mas sim avaliá-lo como obra de ficção.

O filme inicia com um prólogo que nos traz um vislumbre da infância de Cristina, sujeita aos cuidados de uma mãe enlouquecida pela morte do marido, ela é retirada dos cuidados da rainha-mãe pelo chanceler (Michael Nyqvist) e introduzida à vida de herdeira ao trono. Adulta, Cristina (Marin Buska) assume seu reinado, que é repleto de polêmicas, como seu fascínio pelo filósofo francês - e católico - René Decartes (Patrick Bauchau), sua pretensão de trazer a paz entre católicos e protestantes dando um fim à guerra dos trinta anos (o que não é visto com bons olhos pela aristocracia sueca) e sua grande afeição por sua dama de companhia, a condessa Ebba Sparre (Sarah Gadon).
Todos esses elementos fazem com que o enredo seja sempre intrigante, entretanto, parece faltar à personagem principal um desenvolvimento melhor dos conflitos que a cercam, principalmente com sua mãe, com o chanceler e com a aristocracia Sueca. Os elementos de um excelente filme estão todos ali, mas por não terem sido muito bem trabalhados o resultado é uma história superficial e um filme apenas regular. Além disso, por vezes a fotografia, os figurinos, diálogos e as atuações fazem que toda a trama tenha um ar bastante teatral. Outro problema foi o final, que, sem dar spoilers, me pareceu um pouco anti-climático, como se após tanto conflito e luta pessoal a rainha simplesmente se rendesse mais uma vez às vontades alheias.

Apesar disso, o filme tem grandes méritos por abordar de um modo abrangente os diversos dilemas que cercaram a monarca, o principal deles sendo o conflito entre protestantes e católicos. Neste período do século XVII a Europa passa por um intenso conflito religioso e a rainha, com ideias bastante progressivas, propõe uma paz que não é bem recebida pelos membros mais velhos da corte. Além de enfrentar, ao mesmo tempo, seus próprios conflitos internos na descoberta de sua sexualidade e sentimentos por sua dama de companhia.


A Jovem Rainha, apesar de ter algumas falhas, passa longe de ser um filme ruim, a direção é executada com primor e a a história é fascinante - inclusive recomendo uma leitura mais aprofundada sobre a monarca - mas o que faltou aqui foi um trabalho melhor de desenvolvimento dos personagens para que se tornasse uma obra excelente.


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